quarta-feira, 12 de maio de 2010

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Aquele tal Pedro, o rei desaparafusado, e sua Inês

Fui ver mais  uma vez um espectáculo do CACE Cultural do Porto, saido da cabeça do José Carretas, um dos mais criativos encenadores que temos por aqui, sendo ele próprio o autor do texto. Aquele rei desaparafusado, em quem se concentraram algumas das taras paridas na consanguinidade ancestral -cruel, paranoico, obssessivo, bipolar ao máximo, predador sexual - continua a  ser fonte de inspiração e atracção. Sabia que, ao contrário de muitos outros criadores, o José Carretas não pretende no que escreve, introduzir visões particulares de acontecimentos passados. É aquilo que é, e pronto. Mas sob este manto de aparente objectividade, José Carretas não dá ponto sem nó. E o início do espectáculo, com aquele coro "grego" dissertando sobre a maldade de que são feitas as nossas entranhas dá o mote a todo o resto: o ser humano não é flor que se cheire. E logo de seguida arrasa-nos com um coito descarnado, com dois corpos que parecem degladiar-se  numa luta sangrenta. Adiante, que isto dará para uma próxima crónica.
Como já esperava é um espectaculo, apesar da rudeza que por ele perpassa, de uma grande beleza estética. Há soluções cénicas muito bem conseguidas, marcações irrepreensíveis, mudanças de cenas de um rigor profissional. Comovente o monólogo de Maria Rossada (isto é, violada), pela boca aqui da vianense Linda Rodrigues. Tremenda toda a cena que corporiza o assassinato de Inês. Muito bom o desempenho do "Pedro" cujo nome desconheço - o programa é omisso, quanto a mim mal, em indicar quem é quem.
A cena final, recordando-nos como Pedro e Inês se acham sepultados em Alcobaça, é extramente bela. Sem subterfúgios recomendo vivamente este espéctaculo.  Larguem a modorra embrutecedora do sofá, libertando-se da alienação televisiva e do tsunami de novelas simplórias. É daqueles espectáculos que, mantendo uma superior qualidade, é capaz de trazer novos públicos para essa coisa extraordinária que é o Teatro, a nobre Arte do Fingimento. Bom, mas isso são outras cenas, outros teatros. Ou outras novelas.

domingo, 9 de maio de 2010

terça-feira, 2 de março de 2010

Um vale de emoções simples na África do Sul

Numa louvável coaboração deTeatro S.João com outras grupos cénicos, trazidos até ao Porto pela mão do seu director, o encenador Nuno Carinhas, desta vez fui ver ao Carlos Alberto (sala que eu particularmente prezo, vá lá saber-se porquê) a "Canção do Vale" do sul-africano Athol Fugard. Dele e da sua dramaturgia não sabia rigorosamente nada. Mas a nacionalidade do seu autor augurava-me qualquer coisa de diferente, com os seus laivos de exotismo.
E não me desiludi. Antes pelo contrário. Aquilo cheirava a África, a post-apartheid. Trama simplicíssima: um velho negro,(José Peixoto no papel de Abraam Jonkers) agricultor, amante da terra, vive com a sua neta, ( Carla Gusmão no papel de Verónica) numa relação fraternal e pacífica. Mas o conflito estala quando Abraam Jonkers se apercebe que a neta tem outros sonhos quanto ao seu  futuro. Ela pretende abandonar o vale onde vivem, e ir viver para Joanesburgo onde pretende tornar-se cantora.
História simples, tecida numa teia explícita, mas onde circulam afectos, anseios, sonhos,medos. É uma história que tem uma localização precisa, África do Sul, mas que funda as suas raizes num país que, post-apartheid, procura novos caminhos, caminhos que lhe são próprios. E se o velho agricultor negro representa o passado conservador, Verónica é futuro. E nas canções que ela compõe está esse futuro. Não são canções tontas e desenxabidas que vamos ouvindo por aí, mas canções, como se  diziam antigamente, com mensagem. E Verónica canta para nós, e faz do público sentado na plateia o seu próprio público, e partilha connosco,ao cantar, o seu próprio sonho.
Quero dizer que já conhecia a Carla Galvão de outros  trabalhos,nomedamente com o Miguel Seabra. Sempre vi nela uma excelente actriz, carregada de talento.Mas desta vez o que me pasmou foi a sua capacidade para cantar. A rapariga canta mesmo muito bem, a sua voz por vezes atingindo as sonoridades com só as cordas vocais de uma mulher negra são capazes.
Verónica partirá para a grande cidade. E velho Abraam Jonkers, sem ira ou despeito pela partida da neta, esperará a chegada das primeiras chuvas para iniciar a sementeira. Este é um passado que não se pode ignorar. É que sem ele, não poderá haver futuro.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Trinta e cinco anos depois revi a MÃE, de Brecht


Foi com alguma expectativa da minha parte, e porque não dizê-lo, com uma certa emoção que fui ao S. João ver a  peça mais  emblemática de Brecht: "A Mãe". Tinha-a visto a seguir ao 25 de Abril, na Comuna, com música e letra de José Mário Branco, e protagonizada por uma extraordinária actriz, quer entretanto e desgraçadamente "desapareceu de cena": Manuela de Freitas. Tinha desse espectáculo uma memória comovente, esteticamente bela. Desse espectáculo comprei vários "Lp-vinis" e sei que os ofereci a uns quantos amigos.
Passados que foram trinta e cinco anos, as coisas mudaram: o mundo, a sociedade, as aspirações operárias, as manhas anestisiantes do capitalismo, e eu, claro. Num texto profundamente engajado, acreditando na revolução do socialismo, Brecht tece uma teia em que uma mãe, analfabeta e inculta, por amor ao seu filho acaba por participar na revolução socialista. O texto de Brecht detém-se, avisadamente, na revolução russa de 1917.
Não deixando de ser  a obra que é, esta Mãe, de Brecht, apesar de ter que ser lida, interpretada e vista com outros olhos está demasiada colada, e encurtada na sua amplitude, pelo seu engajamento político, por vezes panfletário. Aquilo para que a peça aponta, um mundo socialista, livre de opressores numas manhãs que cantam, já foi posto em prática. Os meios de produção e o produto do trabalho dos operários, já (Já?)esteve em mãos desses mesmos operários. E tudo, eu diria com a minha alma dorida, falhou. O mundo soviético veio por aí abaixo, desmoronando-se fragorosamente. E por isso me senti tão desconfortável por ver passar à minha frente, naquele palco, a corporização de uma palavras de ordem em que eu já acreditei.
Com utopia e pés na terra, as manhas e os tentáculos alienantes do capitalisno e do neo-capitalismo é que têm que ser denunciados. Mas não assim, por muito que queiramos ler Brecht com outros olhos, tal como propõe Jaquim Benite, o (grande) encenador. Mas como?
A ganância do capitalismo americano conduziu-nos a este estado económico de cataclismo. Mas ele sobreviveu, e nos EUA, a banca que recebeu inimagináveis maquias para repor a sua liquidez, à conta dos contribuintes, continua  a dar chorudos prémios pevuniários aos seus directores, os mesmos que fizeram sossobrar a economia mundial, tornando os pobres mais pobres..
Foi, apesar de tudo, um espectáculo que acabei por gostar de ver.
No entanto, e aqui recordo alguns dos grandes actores portugueses que nunca fizeram novelas, como diz o João Mota, penso que de uma forma extremista, "nunca se venderam". É que dois dois dos operários do elenco, eram figuras muito conhecidas da uma série medíocre e pateta da SIC que se intitulava "Os malucos do Riso". Estarei a cometer uma enorme e grave injustiça e que me perdoem por isso. Mas eu olhava para eles, e só via os dois polícias, naquela série tonta, a dizerem bojardas para provocarem o riso.
Terá o João Mota razão? Não pode um actor deixar-se contaminar por sub-produtos da TV? Claro. Vejo às vezes o António Capelo a fazer uma boa série na TV sobre advogados e quando o vi no "Othelo," nem um poucochinho foi a sua imagem beliscada.
E quanto a Brecht não percam, quando disso tiverem oportunidade, de ver aquela que é para mim a sua melhor peça: "O Círculo de Giz Caucasiano".
E a Brecht o que fazemos? Bom, mas isso são outras cenas e outros teatros.