sábado, 13 de novembro de 2010

As cartas da freira de Beja

Mariana Alcofoado,nascida em Beja no ano de 1640, foi uma freira portuguesa do Convento de Nossa Senhora da Conceição. Filha de uma família ilustre, aqui entrou com a idade de 11 anos, destinada a uma vida de oração, entregue a Cristo. Como acontecia a milhares de meninas não a movia um apelo divino. Era uma prática social, numa altura em que imperava o morgadio. Mariana nasceu exactamente no ano da restauração da nacionalidade -1 de Dezembro de 1640. A guerra contra Castela que se seguiu ao longo de décadas, trouxe a Portugal uma série de soldados, oficiais e mercenários. Entre estes vinha Nöel Bourton,aristocrata francês.Foi em Beja que se conheceram e logo a paixão avassaladora dominou Mariana.O escândalo depressa estalou. O francês, temendo pela vida,já que os Alcoforados eram uma família poderosa,regressou a França,embora deixasse a promessa a Mariana que regressaria a Portugal para a resgatar do convento. O que nunca aconteceu.
Esta sua ausência, sofridíssima, levou Mariana a escrever cinco cartas de amor e paixão. Redigidas possivelmente em 1667 e 1668, elas pertencem à literatura universal. Escritas em francês,há uma excelente tradução feita por Eugénio de Andrade. Mariana Alcoforado morreu em 1723, com a idade de oitenta e três anos. Da sua vida resta-nos a sua campa no convento e as suas cartas.
São elas que o Teatro do Campo Alegre e o Seiva trupe têm em cena até ao final do mês de Novembro. A não perder!!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Emilia Silvestre em "Dueto Para Um" de Tom Kempinski

Emilia Silvestre & Jorge Pinto em "Dueto Para Um"

Emília Silvestre "é" Jaqueline du Pré

Está em cena no Teatro Carlos Alberto, até ao dia 24 de Outubro, a peça de Tom Kempinsky, "Dueto para Um" inspirada naquela que foi uma das mais estraordinárias e precoces viloncelistas dos tempos modernos: Jaqueline du Pré e que uma esclerose múltipla, galopante retirou da cena musical. Quem a quiser ver, é sintonizar o canal Mezzo - 150 do Meo, ou 151 da Zon, dedicado exclusivamente à música (mal) dita clássica ou séria. Aqui passam algumas gravações da violoncelista.
Falemos do espectáculo. O espaço cénico do Carlos Alberto, foi radicalmente encurtado, tornado claustrofóbico, as duas paredes laterais pintadas de branco. Ao fundo, numa aberura para a vida, uma mesma paisagem que ao longo da peça vai sofrendo as transfrmações impostas pelo correr das estações -talvez numa resposta cénica à questão básica e estruturante que o psiquiatra coloca à protagonista: "Senhora Abrahms, sabe qual é o sentido da vida?"
Na peça, um texto de escrita difícil em que o autor não cai na comiseração nem na tristeza faduncha, Stephanie Abrahms (Emília Silvestre) é consultada pelo psiquiatra Dr. Alfred Feldman (Jorge Pinto) num desejo de levantar o moral "a quem se encontra em baixo". Não há aqui tristeza faduncha porque Staphanie recusa a auscultação de qualquer inquietação anímica, que a exporiam o seu lado frágil.
São duas horas de puro e grande teatro. Cai-nos no colo de espectadores uma Emília Silvestre (como nunca a tinha visto): trágica,. devoradora, provocadora, dessimulada, excessiva, grosseira (sem medo de recorrer, já na sexta sessão terapêutica, a um jargão digno de um carroceirto). Muitíssimo bem dirigida pelo encenador Carlos Pimenta, a actriz dedobra-se em registos de voz e inflexões absolutamente notáveis, tanto mais que todo o seu desempenho está confinado a uma cadeira de rodas. Aquela que foi adorada por milhões de amantes da música e que da música vivia como um hausto animíco acaba, termina no final, o ser humano que é, despojado de todo o resto.
E por aqui me fico. Foram duas horas de prazer de alma e agradecer a toda uma equipe que levantou o espectáculo. São coisas como esta que me reconciliam com o ser humano. E "A Casa dos Segredos" que passa na TVI, uma bolha vazia, móbida e estupidificante? Sãoquase um milhão de espectadores a ver a coisa. Bom, mas isso são outras novelas, outras teatrices.