Adoro monólogos, o artista colocado em cima da navalha, só, sem as muletas das réplicas e das deixas. É como Marcel Marceau, na solidão de um palco vazio, vazio, vazio. Só - e aqui neste espectáculo, falo de uma contida mas muito expressiva Elsa Galvão, sempres sentadinha e modesta -o artista monologador consubstancia-se em si mesmo como o único ponto de confluência e ao mesmo tempo o único ponto de fuga.
O texto de "A Fala da Criada dos Noailles" foi uma inesprada surpresa, não tanto pela qualidade do texto, longe de mim! -mas pela ironia muito britânica de que está impregnada. Rapidamente, numa breve sinopse, direi que a criada Severine, recorda os anos loucos antes da guerra que viveu em casa do Noalles, mecenas franceses e endinheirados, que recebiam em jantares, estadias e orgias gente ligada à arte. Num discurso que avança, recua e se repete,tal como as 33 assobiadelas ou toques de campainha que monolgante refere, isto é, "O Bolero" de Ravel, fazem-se alusões a convidados immporantíssimos, referenciando-os vagamente não pelos seus nomes soantes da cultura mas apenas por alusões: Maurice Ravel é apenas monsieur,assim como Cocteau: monsieur Jean. Até Picasso, cujo nome nunca se explicita é referido perifrariamente e reiteradamente como "o espanhol pequenito e entroncado". E ainda aquele leit-motiv, inquietante, cínico e provocador:
"A arte não serve para nada. Só para gastar dinheiro"
No final, fechando-se o tempo, a telão de fundo abre-se, num quadro vivo para os fantasmas de Severine virem até nós.
O teatro, este bom teatro a que vamos assitindo nas salas do Porto não serve para nada? Pois não. Nem tem que servir. Para isso temos as novelas narcóticas e os filmes mediocres da LusoMundo e da Castello Lopes. Bom, mas isso são outras cenas, outras fitas.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
segunda-feira, 14 de junho de 2010
sábado, 12 de junho de 2010
A BELEZA DO PECADO pelo Teatro Art'Imagem
A partir de três textos de autores diferentes,com destaque para Almeida Negreiros, Fernando Moreira constroi um espectáculo dorido, pessimista, carregado de símbolos, signos, sinais em que o elemento matricial é a água. O espaço cénico constroi-se e desenvolve-se partir de um lago - ele é o elemento catalizador. Ao longo de 70 minutos percebemos como a água purifica, lava,abençoa, rega, transforma. O texto na boca dos actores Valdemar Santos e Ângela Marques assenta neste pressuposto: num mundo caótico, antropofágico e vazio de valores pouco podemos fazer. Pior que o deficit económico é o deficit espiritual e emocional. Isto não passaria de um discurso negativista (e simplificado) à Shopenhauer se Fernando Moreira não tem criado uma fabulosa personagem: o menino adulto, interpretado pelo Pedro Carvalho, um matulão (fisicamente, claro). É por ele que passam os melhores registos cénicos. É com ele que nos comovemos. É com ele que nos solidarizamos. É dele que nos impregnamos num certo desejo de regressar à ignorância e bondade infantil. Plasticamente muito belo o espectáculo não deixa de incomodar: é o bello horribilis.
O esforço físico e espírito de sacrifício exigido aos actores é tremendo. Atirado para um patamar superior de qualidade estética, são realizações deste cariz que me fazem gostar cada vez desta grande e superior ARTE DO FINGIMENTO. Como é pobre o cinema, ao pretender imitar a realidade.
Uma nota final para a selecção musical feita por Carlos Adolfo. Ao longo da peça vamos ouvindo uma música primordial e telúrica, como se fosse a Terra a respirar.
O esforço físico e espírito de sacrifício exigido aos actores é tremendo. Atirado para um patamar superior de qualidade estética, são realizações deste cariz que me fazem gostar cada vez desta grande e superior ARTE DO FINGIMENTO. Como é pobre o cinema, ao pretender imitar a realidade.
Uma nota final para a selecção musical feita por Carlos Adolfo. Ao longo da peça vamos ouvindo uma música primordial e telúrica, como se fosse a Terra a respirar.
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